quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Como não ter um bicho

Eu nunca tive um cachorro que morasse em minha casa, mas tive outros bichos muito mais sem graça: hamster, outro hamster, aquário de água doce e um pato. Quá!

Sem dúvida o pato foi o pior, antes parecendo o seu camarada aquático lula, já que era uma máquina de cagar, um saco de coco, cagava em tudo o que tocava e por onde andava, na verdade não fazia mais nada além de cagar, e fora quando cagava em você era totalmente anti-social, desinteressado e desinteressante. A estória do Patinho Feio foi escrita incompleta: o cisne esqueceu de jogar na cara daqueles bostinhas que eles não passavam de uns bostudos (sim, é verdade que cisnes também cagam, mas com aquela beleza toda a gente nem percebe, tipo bafo de modelo). Não tardou para o bicho sem graça virar churrasco de gato de pato. Quá!

Agora chega de falar de fezes, antes que o Dr. Flávio Gikovate comece a pensar que eu seja gay.

Ao contrário do pato, o meu hamster foi fruto de uma adoção devidamente estudada. Essa é a forma correta de se ter um animal de estimação. Li dois bons livros sobre hamsters. Aprendi como oferecer o melhor e a maior felicidade para o bicho, que viveu uma vida de rei, até ser acidentalmente esmagado por uma gaveta. Ops! É que levamos o negócio de vida de rei demasiadamente a sério: quantos reis não terminaram subitamente assassinados? O outro hamster foi uma tentativa fútil de substituir o primeiro, e quase foi devolvido, mas eu acabei ficando com dó do pobre impostor, afinal inocente em seu trágico destino, e, agora caído em minhas mãos, melhor nelas do que na frieza do criador, das lojas ou de um pirralho sem noção.

O meu grande esforço, porém, foi o meu aquário de água doce. Eu nem sei quantos livros eu li sobre o assunto. Estudei detalhadamente cada aspecto da coisa. Os aquários estão para os peixes como as gaiolas para os pássaros: um presídio miserável (como os zoológicos para todos os animais). O mínimo que se deve fazer por essas criaturas inocentes é garantir que sua jaula seja como um presídio americano: limpinho, arrumado, cheiroso e bem freqüentado, tanto que nem parece presídio, mas um hotel de luxo. Ainda tenho em minha estante livros para cada espécie de peixe que já possuí. O negócio durou bastante, mas minhas forças finalmente se exauriram, porque a manutenção da brincadeira nesse nível era um trabalho hercúleo. Era, porém, obra de arte. A contemplação daquele ambiente natural e harmônico e de seus habitantes plenamente felizes e saudáveis faria qualquer Hui Tse cair da ponte.

Aí diz o vagabundo preguiçoso irresponsável: “Meu, é só dá umas comida pro bicho, se pá leva no médico, num tem toda essas cumpricação”.

E ele está certo, sem ironias. Não se pode exigir o esforço no cuidado com os animais de estimação de pessoas que ainda mal resolveram os problemas mais elementares, graves e sérios das suas vidas, que também empurram com a barriga aos trancos e barrancos a vida doméstica, social, profissional, amorosa, intelectual, espiritual, etc.etc.

E ele está perdoado, porque no fim, mesmo cuidando mal ou mal cuidando do bicho, o saldo ainda é positivo: o bichinho trará tanta alegria e fará tão bem a ele e sua família que a coisa vira um pecadilho, tipo a pessoa de resto honesta mas esfomeada que rouba um pão. Os bichos dessa gente são pães roubados para saciar uma fome que elas não sabem preencher de outro modo.

É por isso que eu nunca tive um cachorro. Cheguei a comprar livros e estudar o assunto, e não fui convencido de que o animal encontraria felicidade em minha casa ou que eu teria paciência para cuidar bem do bicho por mais de uma década – nenhum hamster, pato ou aquário dura tudo isso. É claro que eu gostaria de ter um cachorro, mas será que eu estou numa condição tão miserável a ponto de precisar extrair prazer e satisfação de um bicho infeliz e mal cuidado? Decididamente, não.

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