Há 20 anos atrás minha rua era cheia de árvores fartas e vigorosas, que de tão fartas não passava caminhão.
Porém, as árvores da calçada são propriedade e responsabilidade da prefeitura, e uma vez assim assumida por ela, as pessoas alegremente as confiam ao Estado-Jardineiro, isentando-se e livrando-se de qualquer responsabilidade ou preocupação, sob pena de multa e processo ambiental.
Resultado: 20 anos depois todas as árvores estão podres, doentes, velhas e sob infestação de cupins presente ou passada.
Há alguns anos atrás essas árvores começaram a cair, uma a uma. Um Pau-Brasil doente, na base do qual se abriu uma cova, foi cimentado ao chão para que não caísse – à revelia da lei. As outras árvores, porém, foram caindo mais ou menos de surpresa – talvez para os incautos.
E cada árvore que caía era uma árvore perdida para sempre, como no pesadelo dos ambientalistas, porque também cabe à prefeitura replantar, e a prefeitura está ocupadíssima e empenhadíssima demais lustrando monumentos públicos, promovendo festas e eventos e reformando a Avenida Paulista para vir cuidar das vias públicas comuns e sem potencial publicitário. No máximo, com muita e insistente choradeira e paciência, pode-se conseguir uma mudinha, que levará mais 20 anos para crescer, se ela pegar.
Como se não bastasse tudo isso, também há poucos anos atrás algum falso engenheiro da Eletropaulo que comprou o diploma, na verdade um agente secreto de alguma organização terrorista adepta de Guy Fawkes, decidiu que, apesar disso nunca ter sido um problema antes e não ser um problema em nenhum outro lugar do mundo, ele faria uma inovação em São Paulo, podando todas as árvores em formato de V de Vingança segundo a lei do menor esforço.
Assim, mesmo que as árvores não caíssem, elas se tornaram literalmente ridículas. Imaginem uma rua cheia de árvores em V. Não é preciso imaginar: visitem São Paulo, e riam.
Recentemente, uma moradora chamada Cassandra percebeu que a árvore em frente a seu prédio estava se deteriorando e começando a vergar. Ela ligou para a prefeitura, para a CET, para os bombeiros. Ninguém lhe deu ouvidos. A gente confia no Estado-Babá até realmente precisar dele um dia e receber um sonoro silêncio de desprezo.
Aterrorizados com a bomba-relógio, os moradores ancoraram a árvore com cordas e cintas. Aí sim, finalmente apareceu um fiscal enfurecido para esbravejar que eles não tinham esse direito, estavam violando todas as leis municipais, estaduais, federais, galácticas e cósmicas, mandou retirar tudo e foi embora.
No dia seguinte, de forte chuva e vento, a árvore despencou.
E despencou sobre a árvore do outro lado da rua, criando um emaranhado de galhos que os funcionários da Eletropaulo, chegando ao local somente à noite escura sem lua e sem luz, saíram podando a esmo por via das dúvidas, pelo sim e pelo não, e porque, evidentemente, eles sinceramente odeiam árvores.
Grandes cidades são caóticas, sujas, feias. São Paulo é a única que, além disso, só rindo para não chorar.

0 comentários:
Postar um comentário